Variedades desde Porto Alegre e Lisboa…

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Caça à erva-mate em Lisboa: tudo por um bom chimarrão

Como é difícil lidar com os nossos vícios. Assim que cheguei em Lisboa comecei a sentir na pele essa afirmação. É que preciso confessar que sou viciada em chimarrão. Sim, essa bebida muito apreciada no Rio Grande do Sul é, para mim, um alento e um consolo em todas as horas do dia. E quando estamos em outro país a dificuldade de se encontrar artigos e produtos regionais do lugar de onde somos é sempre complicado.

Sei de casos em que as pessoas recebem pelo correio, por familiares, esse nobre produto pelo fato de não conseguirem achar erva-mate no país em que estão vivendo. Pois bem, ao menos em Portugal há à venda produtos brasileiros em algumas lojas específicas. Antes mesmo de vir para cá já tinha sondado isso no Brasil. Vim tranquila e com endereços certos para achar essa minha preciosidade. Trouxe, na bagagem, meio quilo de erva-mate e um chá pra lá de especial que adoro colocar no chimarrão. Pois bem, qual não foi a minha surpresa e desespero quando, após acabar a minha erva-mate trazida, não encontrei este produto em nenhum local que tinha anotado anteriormente…

No total foram três dias de procura à erva-mate. Ou melhor, três dias de “caça à erva-mate”. No primeiro dia caminhei, caminhei, caminhei, pedi informações sobre as ruas, caminhei, caminhei… e a erva-mate estava em falta em todo lugar que eu ia. E caminhei por ruas, ladeiras, subi escadarias… No segundo dia foi a mesma coisa. Peguei na internet outros locais e fui atrás de novo. E nada. O produto estava em falta. Outras vezes nem mesmo a loja eu consegui encontrar, mesmo pegando até táxi para vencer essa caçada às bruxas nessa altura. Nunca na minha vida caminhei tanto. (O que até foi bom, pois nessa semana perdi um quilo e 800 gramas!)

No final do segundo dia fui na última loja que tinha anotado. A “Loja do bacalhau”, no Mercado da Ribeira. Fica no Cais do Sodré, em frente a estação de metrô e à beira do Tejo. Desci o Baixa-Chiado em direção ao cais e como sempre fui saboreando as ruas, ruelas, construções antigas, os cafés, o movimento enorme de turistas e as múltiplas línguas que se destacavam nas ruas, etc.  Finalmente encontrei a loja. Porém, a mesma fecha as portas às 19h e já eram 20h. Eu tinha mesmo caminhado outro dia inteiro nessa caça à erva-mate.

Esgueirando-me na vitrine fechada com uma porta de ferro consegui espiá-la por uma fresta. Dali, num momento de alegria inenarrável, vi o que mais ansiava: um pacote de erva-mate em exposição. Uau! Encontrei o meu tesouro! Um tesouro que, embora fechado e lacrado dentro da loja, poderei chegar cedo no dia seguinte e pegar de vez! E foi isso. Fui embora meio triste por não ter encontrado a loja aberta, por não poder voltar o tempo para antes das 19h, mas feliz por finalmente ter encontrado o meu porto seguro. No dia seguinte fui direto na loja. Comprei três quilos de erva-mate Barão do Cotegipe (e também uma térmica que achei numa loja de plásticos no Mercado da Ribeira).

Depois te ter passado a noite inteira imaginando o chimarrão pronto e isso resolvido finalmente chegou esse momento! De lá pra cá está tudo bem. Meu maior companheiro e laço daqui com o meu estado está vivo e presente todos os dias. Bom demais!

Estágio de doutorado no exterior e a escolha das agências para a bolsa

Dia 14 chegou e neste dia aterrizei em Lisboa. Foi um longo percurso até esse momento exato. Primeiro, abdiquei de um concurso em grande parte para poder realizar o antigo sonho de morar fora do país e conseguir usufruir tudo que uma experiência desse tipo proporciona. Depois, acelerei a escrita e defesa da proposta de tese para cumprir os prazos iniciais de entrada da documentação para a solicitação de bolsa de estágio no exterior. Fora as complicações para dar entrada aos papéis, principalmente em relação ao pedido de bolsa Capes, deu tudo certo e me inscrevi para a Capes e CNPq. As duas bolsas foram concedidas e precisei optar por uma. Optei pela do CNPq devido a seis fatores principais:

1. a primeira mensalidade é paga no Brasil (a Capes paga somente quando já se está fora do país, e pelo que já ouvi isso pode demorar mais de um mês…);

2. todo o processo para a inscrição na Capes passou pela secretaria do PPG que faço parte, depois pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação da minha Universidade e finalmente pela própria agência. Já a inscrição pelo CNPq foi direto pelo site (feito online por mim e minha orientadora) e foi facílimo. Achei melhor esse contato direto, pois em caso de férias e afastamentos na secretaria e na própria universidade a agência não para e isso não causará maiores transtornos, como na época da minha inscrição pela Capes (em pleno mês de fevereiro). Embora depois de implementada todo o processo siga sendo feito somente pela Capes…;

3. a minha bolsa de doutorado no país é pelo CNPq, e também fui bolsista por essa agência no mestrado e na iniciação científica. Sim, posso dizer que um lado sentimental falou mais alto também. Além disso, por ser bolsista do CNPq no Brasil, ao optar por essa agência no exterior não precisei pegar nenhum comprovante de suspensão temporária de bolsa (se fosse pela Capes precisaria de mais esse papel). Outro fator importante: a suspensão temporária e a reativação no meu retorno serão feitas de forma automática pelo CNPq, sem intervenção de meu PPG;

4. Tanto pela Capes quanto pelo CNPq solicitei seis meses de bolsa para estudos no exterior. Pela Capes o tempo solicitado e concedido são improrrogáveis. Pelo CNPq posso reavaliar isso durante a estada no exterior e até dois meses antes do fim da bolsa posso solicitar prorrogação, se for o caso (por até mais seis meses). Acredito, até o momento, que seis meses serão suficientes para mim, mas vá que mude de idéia?

5. a bolsa do CNPq não tem suplente, mas a da Capes poderá ser utilizada por outra pessoa. Assim, se optasse pela da Capes a do CNPq não seria transferida a mais ninguém, mas a da Capes sim. Esse foi um fator importante na minha decisão;

6. com a bolsa é da Capes é necessário viajar até o 15º dia útil do mês inicial de viagem (e o pagamento é proporcional ao dia de partida). Já pelo CNPq pode-se viajar até o 15º dia sem desconto na mensalidade. E caso a documentação não fique pronta ou ocorra algum outro problema, pode-se viajar no mês seguinte ainda. Pela Capes a perda de prazo significa perda da bolsa em si. E como fui vendo, por mais que a gente se antecipe e cumpra os nossos prazos antes, as agências e o processo de solicitação de Visto se são em um tempo paralelo, que não temos como administrar… (embora seja produtivo pressionar e se informar constante sobre como estão esses andamentos);

Bem, até o momento estou feliz com esta experiência e com a bolsa em si. Ainda no Brasil a implementação dela foi muito lenta e fiquei com várias preocupações sobre se tudo daria certo, mas no fim valeu e deu tudo certo. Nos próximos posts espero comentar mais sobre esse processo, a experiência que estou tendo, a pesquisa que estou realizando por aqui, assim como aspectos do cotidiano…

Sobre 2007…

Quando iniciei esse blog (lá em janeiro de 2005, e em outro servidor), meu principal objetivo era registrar os descaminhos de minha pesquisa no mestrado em Educação da UFRGS. Ainda estava em êxtase pela conquista de realizar um forte desejo: a possibilidade de, no mestrado, seguir pesquisando e me preparando para a vida acadêmica. Desde lá muita coisa foi ocorrendo, mas que não foram sendo registrados aqui. Por n motivos fui deixando esse espaço de lado. Talvez porque a vida offline exija muito e a online esteja cada vez mais movimentada também.Minha dissertação de mestrado teve como material empírico escritas de comunidades do orkut, principalmente, e também de blogs de emagrecimento. Esse já é um motivo pelo qual fiquei muito mais no orkut e menos, bem menos, aqui. Além disso, a quantidade de materiais que escrevi para a dissertação (considerando, aí, que acabamos escrevendo MUITO mais do que utilizamos – é, de certo modo, uma “lógica do descarte” que se faz presente quando estamos pensando e escrevendo, escrevendo e pensando, afinal, a escrita vai sendo “lapidada” dia a dia) também me fez não aproveitar tanto as possibilidades que esse espaço oferece. Somado a isso, a produção de artigos para eventos e seminários do pós.

Depois, a partir de março de 2007, trabalhando como tutora no PEAD, passei a escrever ainda mais , seja nos comentários sobre as atividades dos alunos (nas interdisciplinas de Alfabetização, Infâncias e História e também em Artes Visuais), nos atendimentos online e em outros blogs envolvendo o próprio PEAD. Enfim, foram tempos de muitas escritas; pena que não tanto aqui.

Durante esses últimos três anos muitas coisas boas ocorreram. Para me centrar no último ano:

1. defendi a dissertação. A banca foi ótima e MUITO generosa com o meu trabalho. O trabalho foi aprovado sem necessidade de alterações e com indicação para publicação.🙂 Considerando que eu sou uma das milhares de pessoas que está sempre insatisfeita com a escrita, com as discussões que está movimentando, acho que isso foi muito estimulante, apesar da constante insatisfação estar cada vez maior (o que é bom também – desde que se cuide os exageros -, pois demonstra que sabemos que sempre podemos melhor e que isso pode ser buscado através do estudo, muito estudo. Além disso, tendo consciência de que não há um “estado” passível de ser alcançado, mas há a aprendizagem constante…).

2. ter iniciado a trabalhar no PEAD foi outro ponto muito positivo. Além de estar experienciando outras possibilidades na área da educação que eram bastante desconhecidas para mim, conheci pessoas muito bem qualificadas e isso vem sendo um aspecto muito importante para a minha qualificação profissional. Venho aprendendo muitas coisas novas tanto em áreas específicas de ensino no qual venho atuando, quanto no próprio modo de gestar um curso e suas práticas internas, como a centralidade e potencialidade de um trabalho interativo e coletivo. São relações com os alunos do curso, tutores e professores que vem me mostrando que há muita prática diferenciada sendo produzida. Desde o início vem sendo um desafio trabalhar na educação a distância, mas algo que vem me transformando profundamente. Junto a isso, em agosto iniciei a especialização na tutoria a distância e aí um novo desafio: ser aluna a distância, as exigências pessoais necessárias para dar conta de tudo. Interessante poder, agora, se colocar no lugar dos alunos, visto que são novas possibilidades aí. O curso é bastante presencial, mas também há aulas em que precisamos trabalhar a distância.

3. De agosto a dezembro fiquei estudando para a seleção do Doutorado. Produzi o anteprojeto de pesquisa, memorial, arrumei currículo, etc. Foi bem difícil pensar em um novo objeto de pesquisa. Depois do mestrado estava (e estou ainda) sedenta por estudar muitas coisas variadas. Foi difícil fazer apontamentos que direcionasse a alguns pontos que convergissem. Um ufa quando passei na prova e, depois, quando passei na entrevista! Dia 18 de dezembro soube que deu tudo certo e em março começo o doutorado! Uma alegria imensa e a certeza de ter muitos novos desafios pela frente. Mas se queremos enfrentá-los certamente tudo fica mais fácil!

Haveria muitas outras coisas para relatar, mas ficarei nesses três pontos por ora. Por fim, quero agora tentar escrever mais por aqui. Talvez sem o compromisso de fazer um blog acadêmico (visto que, em offline, a academia já estará exigindo bastante coisas), mas como uma possibilidade de escrever as coisas que me tocam, que me transformam, que fazem com que eu tenha vontade de escrever…

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Estereótipos, preconceitos e hábitos

Os estereótipos são os lugares comuns do discurso, o que todo mundo diz, o que todo mundo sabe. Algo é um estereótipo quando convoca mecanicamente o assentimento, quando é imediatamente compreendido, quando quase não há nem o que dizer. E grande é o poder dos estereótipos, tão evidentes e tão convincentes ao mesmo tempo. Os preconceitos são os tópicos da moral, o que todo mundo valoriza igualmente, as formas do dever que se impõe como óbvias e indubitáveis. E grande é também o poder dos preconceitos. Os hábitos são os automatismos da conduta. O que se impõe em relação à forma de conduzir-se. Os procedimentos que fabricam os estereótipos de nosso discurso, os preconceitos de nossa moral e os hábitos de nossa maneira de conduzir-nos nos mostram que somos menos livres do que pensamos quando falamos, julgamos ou fazemos coisas. Mas nos mostram também sua contingência. E a possibilidade de falar de outro modo, de julgar de outro modo, de conduzir-nos de outra maneira. (LARROSA, 1994, p.83-84).

REFERÊNCIA:
LARROSA, Jorge. Tenologias do eu e educação. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). O sujeito da educação: estudos foucaultianos. Petrópolis: Vozes, 1994.

Campanha sobre a obesidade infantil

fanuncio12.jpg Está sendo veiculada a campanha Diga não à obesidade infantil. Em paradas de ônibus de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte elas já podem ser vistas.
Ok, estou ciente da “problemática” que envolve essa questão. Nossas crianças (assim como os adultos…) estão engordando. E isso, conforme pesquisas que vêm sendo realizadas, causa muitos danos à saúde, tais como diabetes, hipertensão, colesterol, problemas cardiovasculares, etc. Um dos problemas, creio, está no sentido da palavra causa, significando que a obesidade produz certo efeito, no caso, doenças diversas e, pior, ainda até a morte.
Nisso está relacionada a questão do risco (discutido por autores como Ulrich Beck, Paulo Vaz, entre outros, os quais preciso estudar), onde podemos encontrar algumas idéias sobre como as transformações sociais estão gestando esse tipo de discurso do “terror” quando o assunto é a obesidade.
Cabe salientar, ainda, que o risco é uma probabilidade. Logo, campanhas de “terror” como essa serve para mostrar aos indivíduos o quanto o risco afeta a todos, embora em graus diferenciados. Para haver risco é necessário, ainda, haver a possibilidade de escolha para, aí, poder ser tomadas decisões “adequadas” ou não. A responsabilidade é, assim, direcionada a cada indivíduo. No caso de crianças, que são o alvo da referida campanha, a responsabilidade é posta aos pais e dos professores – aliás, coitadas de nós, professoras, quanta responsabilidade… parece que tudo depende da educação escolarizada –, como está descrito no site:

O Brasil já tem cerca de 6 milhões de crianças obesas, de acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, e hoje essa doença é a maior ameaça à saúde pública brasileira. Uma das principais maneiras de combatê-la é a mudança de comportamento, principalmente pais e professores.

Outra grave problema é a estigmatização que essas crianças, “gordas”, sofrem. Com campanhas como essa isso tende a se acirrar, pois os discursos da saúde estão permeados por questões morais, as quais envolvem valores e normas. Desse modo, combates à obesidade tendem a se tornar, também, combates aos obesos, que sofrem com os estereótipos, estigmas, preconceitos…

No que consiste o feminismo?

Dotá-lo, como rotineiramente é feito, como uma mera oposição, confronto entre feministas e homens é, certamente, uma estratégia útil se o objetivo for desqualificar esse articulado grupo.
Ontem, no dia internacional da mulher, visitei vários blogs que estavam participando da blogagem coletiva proposta pela Denise Arcoverde, do Síndrome de Estocolmo. Para minha alegria – e também como uma oportunidade de aprendizagem -, li ótimas discussões sobre tal tema, com abordagens que tratam o feminismo como um posicionamento em prol da construção de modos de vida outros para as mulheres e, também, para os demais habitantes desse nosso “maluco” mundo.
Assim, e como o objetivo aqui é n-o-m-a-d-i-z-a-r o pensamento (o meu, principalmente) compartilho o seguinte trecho:

o feminismo, […] movimento que nasce no século XIX, caracteriza-se por uma intensa preocupação em criar novos espaços sociais e outras condições subjetivas para as mulheres, na luta contra os modelos de feminilidade impostos pela dominação classista e sexista. Desde as primeiras manifestações pelo direito de voto, ou reivindicando igualdade de salários para as mulheres, as feministas lutaram para alterar as condições de formação e educação das meninas e moças, incitando-as a que procurassem constituir-se autonomamente, rejeitando as sujeições cotidianamente impostas pelo sistema patriarcal e experimentadas na própria carne. Críticas da definição biológica da mulher como estreitamente vinculada ao útero, da maternidade obrigatória e da mistificação da esfera privada do lar, elas têm lutado para que outras formas de invenção de si se tornem possíveis para as próprias mulheres. (RAGO, 2006, p.166).

Isso tudo me lembra a célebre frase de Simone de Beauvoir: “não se nasce mulher, se faz mulher”. Logo, “ser” mulher é algo que passa pela fabricação nas redes da cultura, o que justifica a multiplicidade de modos de “ser” (ou melhor, estar sendo) mulher…

REFERÊNCIA
RAGO, Margareth. Foucault e as artes de viver do anarco-feminismo. In: RAGO, Margareth; VEIGA-NETO, Alfredo (Org.). Figuras de Foucault. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

Mulheres! A que estamos sujeitas? O que nos assujeita? A luta continua…

Somos assujeitadas a que, ainda, na atualidade? Impossível, obviamente, imaginar-nos livres de sujeições (aquilo que subjaz a nós, nos tornando sujeitos disso. Sub – baixo; Jectus – jazes → jaz por baixo). Dentre um dos mais centrais assujeitamentos contemporâneos creio que estão os discursos – advindos de diferentes áreas do conhecimento como da saúde, psicologia, educação física, etc. – que produzem e veiculam discursos normativos sobre o corpo, os quais nos posicionam numa posição de mulher-corpo “naturalizada”.

Esse binômio mulher-corpo, aliás, é acionado sobre a divisão binária entre imanência e transcendência em que homens e mulheres são imaginariamente partidos. Estando, nos discursos de modo geral, a imanência (enquanto aquilo que está na materialidade, que é corpóreo) ao lado das mulheres e a transcendência (ligado ao incorpóreo, ao espírito, à razão) ao lado dos homens, somos relacionadas ao espaço privado, doméstico, da maternidade, intuição, passividade, emoção, enquanto os homens são incluídos no espaço público, como sendo dotados de razão, da ação… Embora essas sejam “cristalizações da imagem” que vem sendo constantemente questionadas e problematizadas (obrigada feministas!), elas ainda persistem de uma forma bem astuciosa, e para atentar a isso basta analisar criticamente algumas pedagogias contemporâneas como: certos programas televisivos, campanhas publicitárias, revistas, músicas, filmes, etc.

Tanto a divisão binária referida quanto a idéia de que “as mulheres não tem um sexo, elas são um sexo” (leia mais), analisada por Colette Guillaumin, atrela, assim, os significados do “ser mulher” ao corpo. O corpo das mulheres é, desse modo, transformado em sexo. Aí podemos encontrar, então, uma das principais condições de possibilidade para o centramento dos discursos corporais normativos sobre as mulheres (embora o seu delineamento aos homens não seja nem um pouco desprezível). Ora, as exigências estéticas são mais endereçadas ao gênero feminino por uma série de razões, entre elas o fato das mulheres serem postas como responsáveis pela sedução e erotismo nas relações amorosas e sexuais – pois é o seu “corpo” que parece predominar como alvo preferencial nas aproximações com um par amoroso ou sexual. Nesse sentido, propagandas de cervejas vêm sendo pródigas nessa criação das imagens das mulheres atreladas ao corpo e ao sexo.
Importante salientar o quanto somos assujeitadas por padrões de beleza, juventude e, assim, de corpo. Plásticas, próteses, dietas, musculação são palavras que fazem parte do repertório de um número incalculável de mulheres – e também de homens, sabemos. Até aí, tudo bem. O complicado é que esses são imperativos que funcionam como uma dobra, uma vez que internalizamos o que vem “de fora” para “dentro”, nos produzindo e nos tornando sujeitos desses aprisionamentos. Por isso a urgência das perguntas: precisamos disso? Dependemos do olhar dos outros? Dependemos desses julgamentos? É nisso que consiste uma possibilidade de felicidade (alicerçada numa suposta “liberdade” de gerir e transformar o corpo que, ao mesmo tempo, nos submete a tantos controles mesmo após a “aposentadoria” dos espartilhos)?
Dito isso, nada mais enjaulador dos modos de viver a “condição de mulher” do que os discursos que dizem de nós ao dizer sobre o nosso corpo. Cada vez mais o mundo é atravessado por morais que tratam desse domínio. “Emagrecer só depende de você”, “não há como ser gorda e ser feliz”, etc., são frases que costumo ler em comunidades do orkut sobre emagrecimento, pró-ana e mia, entre outras, e também em blogs de emagrecimento da web. Um tipo de moral que se aciona a centralidade da aparência para os sujeitos contemporâneos. Cada vez mais parecemos ser aquilo que aparentamos. Então, estar gorda, por exemplo, demonstraria uma negligência de si, uma falta de vontade, de autocontrole sobre si, sobre a sua vida.
Tânia Swain diz que “vivemos em meio a condições de possibilidade, condições de imaginação…”, então que tal aproveitarmos esse dia e todos os demais para, cotidianamente, rompermos fronteiras, amarras e amordaçamentos que nos convocam a sermos assujeitadas à tríade mulher-corpo-sexo? Cada vez mais parece necessário enfrentar o poder onde ele é mais insidioso, que é na produção de modos de vida que ele produz.
Certamente temos muito que comemorar hoje, pois as mulheres de outras gerações e as nossas – assim como as que virão, espero – vem modificando muito o mundo que vivemos, conquistando os seus espaços e possibilitando, com muita luta, que nos seja possível falar abertamente… De outro lado, afirmar isso não significa ficar inerte, pois temos ainda muitos motivos para continuar a lutar bravamente. E lutar contra os nossos assujeitamentos é algo que não parece ser possível sem uma ética (e aqui). Expressão que tem a ver, fundamentalmente, com as formas com que damos às nossas vidas. Ética enquanto uma produção crítica de si mesmo, é disso que necessitamos. Colocar na roda a “problematização” constante do que estamos nos tornando… Então: Mulheres! A que estamos sujeitas? O que nos assujeita? A luta continua…

Materiais sobre o tema:

1.

Cadernos Pagu, que pretende “Contribuir para a ampliação e consolidação do campo de estudos de gênero no Brasil, através da veiculação de resultados de pesquisas inéditas e de textos ainda não traduzidos no país, viabilizando, assim, a difusão de conhecimentos na área e a leitura crítica da produção internacional.”
2.
Revista Estudos Feministas, cujo objetivo é “Divulgar a vasta produção de conhecimento no campo dos estudos feministas e de gênero, buscando dar subsídios aos debates teóricos nessa área, bem como instrumentos analíticos que possam contribuir às práticas dos movimentos de mulheres.”
3. Revista
Labrys.
4. Artigo
Elementos para compreender a modernidade do corpo numa sociedade racional, de Ana Márcia Silva.
5. Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero (GEERGE).

IMPORTANTE: post inspirado pela blogagem coletiva proposta pela Denise Arcoverde, do Síndrome de Estocolmo.🙂

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