Somos assujeitadas a que, ainda, na atualidade? Impossível, obviamente, imaginar-nos livres de sujeições (aquilo que subjaz a nós, nos tornando sujeitos disso. Sub – baixo; Jectus – jazes → jaz por baixo). Dentre um dos mais centrais assujeitamentos contemporâneos creio que estão os discursos – advindos de diferentes áreas do conhecimento como da saúde, psicologia, educação física, etc. – que produzem e veiculam discursos normativos sobre o corpo, os quais nos posicionam numa posição de mulher-corpo “naturalizada”.
Esse binômio mulher-corpo, aliás, é acionado sobre a divisão binária entre imanência e transcendência em que homens e mulheres são imaginariamente partidos. Estando, nos discursos de modo geral, a imanência (enquanto aquilo que está na materialidade, que é corpóreo) ao lado das mulheres e a transcendência (ligado ao incorpóreo, ao espírito, à razão) ao lado dos homens, somos relacionadas ao espaço privado, doméstico, da maternidade, intuição, passividade, emoção, enquanto os homens são incluídos no espaço público, como sendo dotados de razão, da ação… Embora essas sejam “cristalizações da imagem” que vem sendo constantemente questionadas e problematizadas (obrigada feministas!), elas ainda persistem de uma forma bem astuciosa, e para atentar a isso basta analisar criticamente algumas pedagogias contemporâneas como: certos programas televisivos, campanhas publicitárias, revistas, músicas, filmes, etc.
Tanto a divisão binária referida quanto a idéia de que “as mulheres não tem um sexo, elas são um sexo” (leia mais), analisada por Colette Guillaumin, atrela, assim, os significados do “ser mulher” ao corpo. O corpo das mulheres é, desse modo, transformado em sexo. Aí podemos encontrar, então, uma das principais condições de possibilidade para o centramento dos discursos corporais normativos sobre as mulheres (embora o seu delineamento aos homens não seja nem um pouco desprezível). Ora, as exigências estéticas são mais endereçadas ao gênero feminino por uma série de razões, entre elas o fato das mulheres serem postas como responsáveis pela sedução e erotismo nas relações amorosas e sexuais – pois é o seu “corpo” que parece predominar como alvo preferencial nas aproximações com um par amoroso ou sexual. Nesse sentido, propagandas de cervejas vêm sendo pródigas nessa criação das imagens das mulheres atreladas ao corpo e ao sexo.
Importante salientar o quanto somos assujeitadas por padrões de beleza, juventude e, assim, de corpo. Plásticas, próteses, dietas, musculação são palavras que fazem parte do repertório de um número incalculável de mulheres – e também de homens, sabemos. Até aí, tudo bem. O complicado é que esses são imperativos que funcionam como uma dobra, uma vez que internalizamos o que vem “de fora” para “dentro”, nos produzindo e nos tornando sujeitos desses aprisionamentos. Por isso a urgência das perguntas: precisamos disso? Dependemos do olhar dos outros? Dependemos desses julgamentos? É nisso que consiste uma possibilidade de felicidade (alicerçada numa suposta “liberdade” de gerir e transformar o corpo que, ao mesmo tempo, nos submete a tantos controles mesmo após a “aposentadoria” dos espartilhos)?
Dito isso, nada mais enjaulador dos modos de viver a “condição de mulher” do que os discursos que dizem de nós ao dizer sobre o nosso corpo. Cada vez mais o mundo é atravessado por morais que tratam desse domínio. “Emagrecer só depende de você”, “não há como ser gorda e ser feliz”, etc., são frases que costumo ler em comunidades do orkut sobre emagrecimento, pró-ana e mia, entre outras, e também em blogs de emagrecimento da web. Um tipo de moral que se aciona a centralidade da aparência para os sujeitos contemporâneos. Cada vez mais parecemos ser aquilo que aparentamos. Então, estar gorda, por exemplo, demonstraria uma negligência de si, uma falta de vontade, de autocontrole sobre si, sobre a sua vida.
Tânia Swain diz que “vivemos em meio a condições de possibilidade, condições de imaginação…”, então que tal aproveitarmos esse dia e todos os demais para, cotidianamente, rompermos fronteiras, amarras e amordaçamentos que nos convocam a sermos assujeitadas à tríade mulher-corpo-sexo? Cada vez mais parece necessário enfrentar o poder onde ele é mais insidioso, que é na produção de modos de vida que ele produz.
Certamente temos muito que comemorar hoje, pois as mulheres de outras gerações e as nossas – assim como as que virão, espero - vem modificando muito o mundo que vivemos, conquistando os seus espaços e possibilitando, com muita luta, que nos seja possível falar abertamente… De outro lado, afirmar isso não significa ficar inerte, pois temos ainda muitos motivos para continuar a lutar bravamente. E lutar contra os nossos assujeitamentos é algo que não parece ser possível sem uma
ética (e
aqui). Expressão que tem a ver, fundamentalmente, com as formas com que damos às nossas vidas. Ética enquanto uma produção crítica de si mesmo, é disso que necessitamos. Colocar na roda a “problematização” constante do que estamos nos tornando… Então: Mulheres! A que estamos sujeitas? O que nos assujeita? A luta continua…
Materiais sobre o tema:
1.
Cadernos Pagu, que pretende “Contribuir para a ampliação e consolidação do campo de estudos de gênero no Brasil, através da veiculação de resultados de pesquisas inéditas e de textos ainda não traduzidos no país, viabilizando, assim, a difusão de conhecimentos na área e a leitura crítica da produção internacional.”
2. Revista Estudos Feministas, cujo objetivo é “Divulgar a vasta produção de conhecimento no campo dos estudos feministas e de gênero, buscando dar subsídios aos debates teóricos nessa área, bem como instrumentos analíticos que possam contribuir às práticas dos movimentos de mulheres.”
3. Revista Labrys.
4. Artigo Elementos para compreender a modernidade do corpo numa sociedade racional, de Ana Márcia Silva.
5. Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero (GEERGE).
IMPORTANTE: post inspirado pela blogagem coletiva proposta pela Denise Arcoverde, do Síndrome de Estocolmo.
3 Comentários
8 Março, 2007 em 7:40 pm
Oi,
Seu blog é muito interessante, cheguei aqui pelo Síndrome de Estocolmo e estou participando da blogagem coletiva para o Dia da Mulher, aliás, feliz dia!
Desculpe a invasão.
Até mais,
9 Março, 2007 em 12:32 am
Olá
Obrigado pelo visita e pelo comentário,,
Estou muito feliz em ler tantos textos inteligentes e bem feitos sobre as mulheres. Parabéns para a Denise e para você, por serem mulheres que usam (e muito) a cabeça…
Gostei do blog, voltarei frequentemente…
10 Agosto, 2007 em 2:34 pm
Very useful and informative blog. Recommended for all to see.
http://medsdrugs.blogspot.com/
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